O escritor Pedro Nunes Filho diz, no artigo publicado no Portal Vitrine do Cariri, que fotografias antigas são documentos valiosos que a gente tira do fundo dos baús para ajudarem a recompor da História. E é valendo-se de uma foto que mostra uma reunião de coronéis, potentes chefes dos sertões da Paraíba do Norte, que Pedro Nunes escreve um belo artigo sobre a época dos coronéis da política paraibana, homens que mandavam e desmandavam, faziam e desfaziam.
"Mas que reunião foi essa cuidadosamente documentada em foto no ano da graça de 1915? Trata-se de um encontro em que este grupo decidiu unir forças para apoiar a candidatura de Epitácio Pessoa a Senador da República", relata o escritor.
Confira o texto na íntegra:
FOTOS & FATOS - Coronéis do Sertão
Fotografias antigas são documentos valiosos que a gente tira do fundo dos baús para ajudarem a recompor da História.
Esta foto mostra uma reunião de coronéis, potentes chefes dos sertões da Paraíba do Norte. Homens que mandavam e desmandavam, faziam e desfaziam. Escrever sobre eles é uma satisfação sem beira. Primeiro, veja quem são:
Em pé, da direita para a esquerda:
Deputado Pedro Bezerra, de Alagoa do Monteiro; Coronel José Pereira, de Princesa Izabel;Inocêncio Nobre, cunhado de Zé Pereira; Máter Rolim, de Cajazeiras; Oscar Soares e o Jornalista Celso Mariz, biógrafo do Padre Ibiapina.
Sentados, seguindo a mesma ordem:
José Gaudêncio, de São João do Cariri; Antônio de Souza Lacerda Nitão, de Itaporanga; Governador Solon de Lucena; Governador João Suassuna e Miguel Sátiro, de Patos.
Quando iam à Paraíba (esse era o nome da capital) os chefes-políticos do Sertão costumavam se hospedar no HOTEL CENTRAL. Lá, reuniam-se para discutir política e tomar decisões em grupo.
Mas que reunião foi essa cuidadosamente documentada em foto no ano da graça de 1915? Trata-se de um encontro em que este grupo decidiu unir forças para apoiar a candidatura de Epitácio Pessoa a Senador da República. Coronel Zé Pereira era o líder do grupo. Amarraram-se uns aos outros, usaram prestígio, gastaram falação e derramaram dinheiro. Prestigiados, venceram e, é claro, venceu também o senador que eles apoiaram. Vitória espantosa. Só para se ter uma idéia, em Princesa, Epitácio teve cem por cento dos votos. Incrível a estatura política do coronel de Princesa! Felizes, fortes, festejaram. Orgulhoso do feito, Zé Pereira ergueu no centro de sua cidade monumento de bronze em homenagem ao grande senador paraibano, que em 1919 seria Presidente da República, aumentando ainda mais a força e o prestígio de seus correligionários, coronéis dos nossos paraibanos sertões. Reinava lealdade absoluta e recíproca. Amizade que parecia jamais ter fim. Só que em matéria de política, as coisas mudam igual a desenhos formados por garras de nuvens soltas no céu ao sabor do vento. A gente repara, muda a vista, quando olha de novo, o desenho sumiu ou se transformou em algo completamente diverso. Na vida política, o acontecer dos fatos é muito dinâmico, os cenários transformam-se num piscar-de-olhos. Bom? Ruim? Sei lá!... Às vezes, decepcionante, não? Acho que sim!
Bem, com a ida de Epitácio para o Senado e depois para a Presidência da República, os ventos continuam soprando na direção favorável aos interesses dos velhos coronéis. Solon de Lucena governou de 1920 a 1924 e João Suassuna, de 1924 a 1928. Até então, tudo corria bem. O partido sólido e unido elegeu João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, sobrinho de Epitácio, para governar a Paraíba de 1928 a 1932. João Pessoa assumiu o governo e tratou logo de atualizar salários atrasados e pagar credores. Deu início a uma reforma administrativa vigorosa com vistas a recuperar as finanças do estado que estavam combalidas. Mexeu com muitos interesses, percebeu reações, mas se manteve firme e intransigente em defesa dos interesses públicos. Sua ação em prol da recuperação da economia, da saúde e da educação mereceu aplausos.
Ocorre que o grupo de coronéis que o apoiou manifesta a pretensão de reconduzir Suassuna a deputado federal pelo partido. Pretensão mais do que justa, em se tratando de um homem probo, honrado que acabara de deixar o governo do estado atropelado por uma crise financeira, mas com importantes realizações, entre elas, o desbaratamento do cangaço, cujos bandidos vinham levantando poeira à luz do dia nas estradas da Paraíba. O coronel Zé Pereira que auxiliara Suassuna no combate a Lampião, apóia todas as ações de João Pessoa por lealdade partidária, mas também em razão da amizade com o tio Epitácio. Ninguém melhor que ele, Zé Pereira, para levar a pretensão do grupo ao governador, que desconversou o assunto, deixando a decisão para outra hora. Na verdade, João Pessoa começava a enxergar as velhas lideranças como um empecilho às reformas administrativas que prometera fazer. Queria renovar, mas encontrava resistências. Os coronéis, na visão dele, eram mandões, autoritários, centralizadores, viciados e contrários a qualquer tipo de mudança que não lhes trouxesse benefícios pessoais e os fortalecesse no poder.
Ademais os sertões da Paraíba haviam se transformado num quintal de Pernambuco. Os coronéis — produtores de algodão e comerciantes — vendiam suas safras no Recife e lá também compravam as mercadorias que negociavam em seus municípios. Transacionavam com os Pessoa de Queiroz, grandes comerciantes daquela praça e primos legítimos do governador João Pessoa.
Pretendendo recuperar a combalida economia da Paraíba, cujos sertões só rendiam lucros a Pernambuco, João Pessoa baixou um decreto, criando pesados tributos sobre bens provenientes do Recife e sobre o algodão que para lá seguia. A odiosa exação foi chamada por seus opositores IMPOSTO DAS PORTEIRAS. Pretendia o governador que as riquezas da Paraíba servissem à Paraíba, e não, a Pernambuco. Só que esta medida contrariou os interesses dos coronéis que num estalo de tempo viram seus negócios minguarem e seus lucros despencarem. Os Pessoa de Queiroz, primos e desafetos do governador da Paraíba, apelidaram-no de JOÃO PORTEIRA
Ao mesmo tempo em que João Pessoa introduzia mudanças que considerava modernizadoras para seu estado, em todo o país rolavam conchaves políticos para a sucessão presidencial. Neste ambiente de interesses e conflitos, o Presidente Washington Luís lança como candidato à sua sucessão Júlio Prestes para concorrer com Getúlio Vargas. Washington Luís consultou 20 governadores, recebeu o apoio de 17 e a rejeição de três. Quais os estados que se opuseram à candidatura de Júlio Prestes? Minas Gerais, Rio Grande do Sul e a nossa pequena Paraíba. João Pessoa se insurge e dá um NÃO à candidatura oficial, decisão política essa que ficou conhecida como o NEGO. Inexplicavelmente, esta palavra ainda perdura na bandeira da Paraíba. Na sequência dos fatos, Getúlio escolhe João Pessoa para ser seu vice na chapa que disputaria a Presidência da República.
João Pessoa, governador e candidato a Vice-Presidente da República, lança-se em campanha no interior de seu estado. Dar início à sua viagem, visitando Princesa, onde percebia a possibilidade de um foco de resistência. Zé Pereira o hospeda em sua residência e, novamente, cobra-lhe decisão quanto à recondução de João Suassuna à deputado federal. O governador, mais uma vez, desconversa o assunto e nada decide. Zé Pereira entende seu silêncio como uma resposta negativa, uma recusa silenciosa. De fato, era. João Pessoa queria renovar o quadro das lideranças sertanejas, pondo fim ao poderio dos coronéis. Zé Pereira percebe isso e rompe com ele. Aí acontece o primeiro erro do governador. Autoritário, ministro de uma Corte Militar e sem habilidade política, fecha as repartições públicas estaduais em Princesa e manda suas tropas sitiarem a cidade. Zé Pereira opta pelo enfrentamento. Arma-se e organiza forte resistência. Recebe armas e apoio do Presidente da República, Washington Luís, e dos Pessoa de Queiroz, ricos comerciantes do Recife. Diante do arrocho não se curva. Antes, declara Princesa um Território Independente com constituição própria, hino, bandeira e jornal, cujo texto fazia referências ao vizinho estado da Paraíba. Começa uma guerra violente nos sertões da Paraíba do Norte. As tropas do governo cercam Princesa e Zé Pereira, bem municiado, reage com seu exército particular, fazenda estragos impressionantes nas tropas do governo. Zé Américo, Secretário de Segurança, desloca-se para o palco da guerra. Fica em Tavares, cidade próxima ao reduto do coronel e comanda a luta para retomar a cidade rebelde.
Neste ínterim, acontece o segundo erro de João Pessoa. A polícia invade o escritório do advogado João Dantas na capital, a mando — dizem — do governador e de seu secretário de segurança. Abrem o cofre do advogado e levam-lhe cartas íntimas trocadas com sua noiva, a professora Ana Beiriz. As cartas são divulgadas nos jornais e nas ruas da cidade. Desmoralização imperdoável para um Dantas, família de sangue quente.
Os céus da Paraíba se turvam. Em 26 de julho de 1926, João Pessoa vem ao Recife a passeio e é assassinado a tiros de revólver por João Dantas. Na hora do trágico incidente, o governador estava na Sorveteria Glória, Rua da Palma, no centro da capital pernambucana, sentado numa mesa com amigos, entre eles, Agamenon Magalhães. Ali recebe os disparos do inimigo e tomba. É socorrido em uma farmácia próxima. Naquele momento, ia passando na calçada o Padre João Onofre, que fora coadjutor em Alagoa do Monteiro e tentara pacificar os ânimos para evitar uma guerra entre o governador João Machado e o Promotor Augusto de Santa Cruz Oliveira, nos idos de 1911. Não obstante o seu espírito pacificador, a guerra aconteceu de todo jeito. Bem, naquele fatídico dia 26 de julho de 1930, o padre Onofre ia passando em frente à farmácia e é chamado para dar extrema-unção a João Pessoa, que ali mesmo veio a falecer. João Dantas e o engenheiro Caldas, seu cunhado que o acompanhava na hora do crime, foram presos e dias depois degolados na Penitenciária do Recife. As autoridades divulgaram que ambos haviam se suicidado. Só que João Dantas não era homem de cometer suicídio em circunstância alguma. Hoje, sabe-se quem autorizou a degola e até quem foi o executor.
As eleições presidenciais haviam se realizado e a Café Filho vencera. Explode a Revolução de 30 que se espalha por todo o Brasil, tendo como estopim a morte de João Pessoa. O Território Independente de Princesa se desfaz, Zé Pereira foge.
Café Filho não assume a Presidência da República e uma Junta Militar entrega os destinos do país a Getúlio, que assume e governa ditatorialmente por 15 longos anos.
No período pós-morte de João Pessoa, a Paraíba complica-se. Intrigas e desavenças tomam conta da vida dos paraibanos. A família Dantas é execrada. Suas fazendas são incendiadas. Os Pessoa de Queiroz que se eram inimigos do primo João Pessoa, sobrinho preferido do tio Epitácio, vêem seus bens incendiados e fogem para a França. João Suassuna, casado com Dona Ritinha Dantas, é deputado federal e passa a sofrer ameaças, como se tivesse culpa no assassinato de João Pessoa, sem ter. À traição, é morto por um pistoleiro numa rua central do Rio de Janeiro.
Desgraças e infortúnios tomam conta da Paraíba! Desavenças, intrigas de todo tipo e vinganças prejudicam a economia do estado.
Esse clima de desentendimentos políticos pereniza-se, desestabilizando o estado ao longo de sua vida institucional. Se examinarmos a história da Paraíba, veremos que são poucos os governadores que concluíram seus mandatos. Ou morreram, ou mataram, ou renunciaram ou foram cassados ou depostos..
Quando, enfim, os políticos paraibanos, na esfera estadual e municipal, haverão de enxergar os caminhos do bem-comum, deixando de lado paixões exacerbadas e a prevalência de interesses particulares? Quando?!
Verdade é que, enquanto os estados nordestinos — entre eles Pernambuco — crescem e avançam com pujança, a economia da Paraíba míngua, encolhe e a pobreza se multiplica.
CAUSA: lideranças de calças curtas, políticos carentes de consciência cidadã e espírito público, gente que gasta o tempo em contendas políticas, tipo arrasta-tapete e intrigas-de-comadres. Pena que a imprensa falada e escrita e, especialmente, os BLOGS, na ânsia de captarem leitores, ao invés de combaterem esse clima de intrigas perniciosas, incitam e estimulam o disse-me-disse, o bate-boca vazio e estéril.
Acorda, Paraíba! ACORDA!
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